No passado dia 28 de Julho, teve lugar na Associação Chá de Caxinde, em Luanda, uma conferência sobre pobreza. Apresentei aí algumas ideias sobre o Programa Municipal Integrado de Desenvolvimento Rural e Combate à Pobreza, que partilho aqui convosco, para as discutirmos.
Considero a iniciativa positiva mas existem vários aspectos que podem ser melhorados. Identifico abaixo cinco aspectos positivos e cinco que merecem preocupação.
Aspectos positivos
- O reconhecimento público que a pobreza é um importante desafio nacional é passo na direcção certa. É uma evolução em relação ao tempo onde quase era considerado de anti-patrótico falar da pobreza do país. Considerava-se então que os dados sobre pobreza estavam desactualizados ou eram o resultado de uma má vontade interncional contra o nosso país.
- O Presidente da República falar do tema pobreza nos seus discursos. Como, infelizmente, ainda vivemos um ambiente de "palavras de ordem" onde há a tendência para só reconhecer como importante o que é dito pelo chefe nas suas palavras de ordem, esta atenção do PR é muito positiva.
- Existir um programa específico (talvez até dois...), dedicado ao tema e com recursos importantes. Isto permite dar foco à acção governativa neste domínio.
- Os municípios ligados ao combate à pobreza. Este nível da administração pública é um dos que está próximo dos cidadãos e que, por isso, tem um potencial elevado para ser eficaz no combate à pobreza.
- Uma perspectiva multidimensional que inclui estradas, ensino, saúde mas também reforço de capacidades das instituições.
Aspectos preocupantes
- Assente numa concepção redutora de pobreza onde os pobres são vistos como alvos e não como vítimas de distorções que cabe ao estado corrigir. São por isso quase ignoradas as raízes estruturais da pobreza em Angola e o potencial do cidadãos mais pobres na resolução do problema. Daí resulta a...
- Falta de coerência com muitas acções de política pública. Ao mesmo tempo que se fala em combater a pobreza verifica-se um combate contra os vendedores dos mercados informais, políticas para o meio rural que aumentam a vulnerabilidade dos pobres, falta de respeito pelo direito à terra pelos mais desfavorecidos, investimentos avultados em projectos de imagem usando recursos que poderiam ser investidos no desenvolvimento humano, etc.
- Abordagem centralizadora e de cima para baixo. A iniciativa está demasiado centrada na cúpula, o que é contraditório com algumas das definições (de foco no munícipio e de envolvimento de actores locais como Igrejas e ONGs que é pobre ou nula)
- Pouco enraizamento na sociedade e nas necessidades locais. Alocam-se os mesmo recursos a cada um dos municípios, independentemente da sua população e nível de dificuldade (na realidade o valor é por vezes diferente mas agravando distorções). As associações e igrejas locais pouco ou nada são envolvidas na concepção e implementação.
- Excessivo foco nas infra-estruturas. Isto é feito de uma forma que gera pouco emprego local e, não adoptando tecnologia apropriada, o que aumenta o risco de pouca sustentabilidade do que é feito.
O engajamento dos cidadãos e das suas organizações na implementação, monitoria e avaliação destes programas, é fundamental para ajudar a melhorá-lo e a corrigi-lo. Dar visibilidade a acções de combate à pobreza enraizadas na comunidade é uma outra frente a utilizar para influenciar este programa.




















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