Luabango, 30 de Setenbro 2010 - Desolação, lágrimas e frustração a mistura marcam, desde quarta-feira, a vida de perto de duas mil famílias desalojadas pelo governo da província da Huíla, em Angola, seis meses de pois das primeiras três mil vítimas de demolições forçadas, em Março 2010, continuarem em condições precárias na zona da Tchavola.
Os populares foram despertados pelos rumores de máquinas bulldozers, com ordens expressas pelo governador da Huíla, Isaac dos Anjos, para deitar por terra todas as casas construídas nas margens até 50 metros do rio Mukufi, no centro da cidade capital.
Desta vez, os roncares dos motores e a poeira levantada por caterpillars no centro da cidade despertaram a atenção de milhares de pessoas que acorreram aos cenários da “guerra contra os pobres”, que residiam nos bairros Lucrécia, Comercial, 14 de Abril e Favorita.
O processo de destruição de moradias envolveu quatros máquinas e três camiões, que custaram cada milhões de dólares aos cofres de Estado. Em poucos minutos, a potência das máquinas, adquiridas e alugadas pelo executivo local para este propósito, reduziram ao pó as casas que muitos cidadãos construíram ao longo de vários anos.
Os rastos de destruição podem ser comparados como os estragos deixados no Haiti por forças da Natureza. A verdade é que os destroços das antigas casas foram demolidos pelo homem que governa a província da Huíla que pressionou os seus colaboradores directos para materializar a desgraça, enquanto gozava férias na China.
A medida que a destruição avançava, as vítimas do “martelo demolidor”, entre crianças, idosos, portadores de deficiência e mulheres grávidas foram transferidas sem indemnização para uma zona conhecida por Tchimucua, onde faltam escolas, postos de saúde e água potável.
As famílias afectadas foram consoladas com um espaço de mil metros quadrados, onde são obrigadas a recomeçar as suas vidas, através de processo de autoconstrução dirigida, sem apoio material do governo.
Um forte dispositivo de segurança, constituído por Polícia da Ordem Pública, de Intervenção Rápida (PIR), Polícia Militar (PM) e Forças Armadas Angolanas (FAA), foi mobilizado para acompanhar as demolições e com orientações de “(a) tirar” ou prender quem mostrasse resistência.
Aqueles que tentaram resistir, viram os seus haver moídos pelas máquinas no interior das antigas residências, enquanto outros foram presos arbitrariamente. “Tira dali este gajo. Senhor sai da frente porque só estamos a cumprir ordens”, disse um agente da Polícia Nacional, quando certo cidadão questionou os direitos dos angolanos.
A destruição afectou muitas famílias cujas casas não estavam marcadas para serem demolidas, mas que assistiram o martelo ruir os lares sem aviso prévio, para uma suposta requalificação urbana.
O povo da Huíla aprendeu a lição
Os bulldozers continuaram sob olhar indignado de muitos cidadãos, que a guerra trouxe a cidade do Lubango em busca de segurança, mas transformadas pelas instituições estatais em cenário de violações dos direitos fundamentais do homem, consagrados na Constituição e Declaração Universal. A guerra terminou há oito anos.
As pessoas que assistiram ao derrube de casas repudiam veemente a acção do governo da Huíla, como ente público, pelo facto de insistir em desrespeitar os direitos fundamentas dos cidadãos.
Ouviram-se comentários e reclamações de muitos cidadãos que consideram a atitude do governo como grave em função de ser signatário da carta das Nações Unidas para os direitos humanos. Muitos cidadãos questionaram sobre o voto de confiança depositado ao partido no poder que, prometeu construir um milhão de casas em 4 anos.
“Meu Deus, o mundo está mesmo a chegar ao fim. Nunca vi tanta maldade”, exclamou um ancião, questionando “se é possível, alguém que prometeu dar casas retirar as que população construiu com muito sacrifício”.
Muitos cidadãos vítimas das demolições destruíram os cartões de eleitores e outros lubangueses ameaçam votar contra o partido no poder nas próximas eleições presidências marcadas para 2012, pelo facto de estarem decepcionados com a confiança deposita ao MPLA nas eleições legislativas de 2008.
Até pessoas ligadas ao governo não gostaram do que viram mais uma vez ainda no decurso deste ano, depois da miséria que as demolições de Março deixaram em milhares de famílias colocadas ao ar lento na Localidade da Tchavola.
O cidadão Gaby Celestino caracterizou o povo da Huíla como “muito humilde e educado”, porque sempre obedeceu as ordens das autoridades. Rematou que, apesar desta característica, “todos estão mais conscientes sobre o que faz bom ou mal as suas vidas”.
“Nós votamos para eles governarem, mas hoje estão a nos tirar o que de mais precioso que conseguimos com muito sacrifício sem nenhuma recompensa. Podem festejar porque nos tiraram daqui. Mas, não deve esquecer que o povo aprendeu a lição”, observou.
Fonte: Anónima























Produção de pobresa em vez de combatê-la
A forma como se está a gerir este dossier das demolições revela um total desrespeito pelas pessoas e pelos seus direitos. Falamos de Metas de Desenvolvimento do Milénio e ao mesmo tempo geramos pobresa